sábado, 23 de abril de 2022

“AO BAIRRISMO E À BENEMERÊNCIA DOS BARRILENSES”

 


Em julho de 2020, com a pompa da circunstância, depois de recuperado o primeiro edifício sede da Filarmónica Barrilense, foi inaugurada no Barril de Alva a Casa/ Museu, denominada “Os Barrilenses são assim”.

Em julho de 2022 está prevista a abertura deste espaço que reúne vestígios da história documentada, proporcionando aos visitantes uma “visita guiada” a tempos de outrora através de textos e imagens, além da contemplação de peças decorativas de valor estimativo cedidas pelas instituições patrocinadoras deste projeto cultural de inegável importância para a comunidade: União e Progresso do Barril de Alva e Associação Filarmónica Barrilense.

“Os Barrilenses são assim”

Esta “…aldeia ignorada, já entrava no cadastro da população de 1527 com a sua dezena de habitantes, que viveram e sofreram nos tempos de Vasco da Gama e de (Afonso de) Albuquerque…” (Dr. Alberto Martins de Carvalho), cresceu pelo empenho de bem fazer da família barrilense, com realce para uma “mão cheia” de concidadãos com disponibilidade económica acima da média - a sua benemerência, eternamente reconhecida, permitiu dotar o Barril de Alva com obras de utilidade pública que perduram no tempo…

A Casa/Museu, enquanto espaço cultural, de forma modesta e singela, pretende homenagear TODOS os barrilenses, de acordo com as suas competências e qualidades, artífices do airoso e prazenteiro território, berço de muitos de nós e enlevo de quem nele reside, ou não!

A imagem literária que melhor se adapta ao memorial da Casa/Museu, com a possibilidade de itinerância, está gravada no obelisco erguido na praça Alberto Martins de Carvalho, no Barril de Alva, pela U.P.B.A. em 25 de junho de 1965:

AO BAIRRISMO E À BENEMERÊNCIA DOS BARRILENSES

- Na verdade, “… a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer...” (Alberto Caeiro)!

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Abílio Nunes dos Santos subsidiou a construção do cemitério do Barril de Alva

Abílio Nunes dos Santos, um dos proeminentes filhos do Barril de Alva, contruiu  o cemitério em terreno oferecido por António Freire de Carvalho e Albuquerque, "senhor da Casa do Barril"



Cópia de parte da ata da sessão da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Arganil, de 11 de março de 1920.
------------------------
DELIBERAÇÕES: “Tendo-se apresentado nesta sessão o cidadão Albano Nunes dos Santos, do Barril, declarou que fazia entrega à Câmara dum cemitério construído naquele povo por seu irmão Abílio Nunes dos Santos, em terreno de António Freire de Carvalho e Albuquerque, com a condição de que o espaço de terreno designado na planta que aqui fica arquivada, sob os números 3, 4 e 5 se considera  pertença da família Nunes dos Santos, e o designado sob os números 6 e 7 da família  Freire de Carvalho,  e ainda também  com a condição de que, se no referido povo do Barril se constituir algum dia uma freguesia, para a Junta respetiva se transfira a administração e a propriedade do mesmo cemitério.-Considerando que o estabelecimento de cemitérios é atribuição da Câmara, como se vê no número 25 do artigo 94 da Lei de 7 de agosto de 1913, mas considerando, por outro lado, que aqui se trata de cemitério já construído, sem qualquer dispêndio da mesma Câmara e que ele é necessário; considerando ainda que a aceitação do mesmo cemitério não resulta encargo, visto que as despesas de conservação ficam  bem garantidas pelas vendas das sepulturas, delibera esta Comissão:-----------------
1.º Louvar o cidadão Abílio Nunes dos Santos pelo melhoramento que dotou a sua terra natal, o qual é e continuação de outros mais,  que lhe dá direito  à gratidão do povo;--------
2.º Aceitar a doação nos termos em que foi feita salvos outros direitos de preferência , caso a Câmara na próxima sessão plenária o entenda por bem;------------
3.º Louvar o cidadão António Freire pela cedência gratuita do terreno do dito cemitério".---
*
Está conforme
Arganil, secretaria da Câmara Municipal, 15 de março de 1955
O Chefe da Secretaria
(ilegível)-
-
Fonte: Câmara Municipal de Arganil

A benemerência de Joaquim Mendes Correia de Oliveira


Progresso da terra natal e o bem-estar da sua população foi o paradigma de ilustres barrilenses durante décadas de lideranças arrojadas e investimentos públicos, como fontanários, igreja e capelas, escola pública, ruas e caminhos, etc, etc.
Joaquim Mendes Correia de Oliveira, barrilense, pouco referenciado, é certo, mas pelo merecimento da sua generosidade justifica encómios e destaque de “primeira página”, como o Governo da República reconheceu em 1913 ao conceder-lhe um louvor, publicado no Diário do Governo n.º 57/1913, Série I de 1913-03-11.
A Junta de Freguesia do Barril de Alva, em 1924, também não deixou de lhe prestar justa homenagem ao atribuir seu nome a uma das primeiras ruas da aldeia…
Joaquim Mendes Correia de Oliveira emigrou para Belém do Pará, no Brasil, onde fez fortuna. De regresso a Portugal, construiu de raiz um soberbo palacete na sua terra natal, ainda de pé e habitável. O edifício é conhecido pela “prédio dos bonecos” pelo facto da decoração do beirado ostentar peças de estatuária.
A talhe de foice, refira-se o pormenor de ter sido, em 1911, local de pernoita do ministro do Fomento da República, Brito Camacho, de visita à região.
A benemerência do nosso conterrâneo estendeu-se à construção
- do esplendoroso edifício da escola primária do Barril de Alva, em parceria com José Freire de Carvalho e Albuquerque, Abílio Nunes dos Santos e Joaquim Nunes dos Santos;
- da antiga sede da Filarmónica Barrilense (agora, depois de recuperada acolhe um projeto cultural de inegável importância na comunidade: a Casa/Museu “OS BARRILENSES SÃO ASSIM”, frase emblemática dita vezes sem conta pelo seu filho A.I.A.C.O);
- da igreja matriz do Barril de Alva, que tem como orago S. Simão. 
Infelizmente, Joaquim Mendes Correia de Oliveira faleceu relativamente novo. 
A lista de pessoas de bem fazer, não sendo extensa pela leitura das marcas de avultadas obras, é, no entanto, enorme pelo espírito solidário de quem nasceu barrilense ou sente como sua esta mesma “pátria”. 












Honra ao mérito: a escola do Barril

(…) são altamente louváveis todos os esforços que se empreguem para derramar a luz nas trevas  da ignorância, para levar  aos pequenos cérebros o brilho cintilante da instrução, fazendo mais tarde dessas crianças  cidadãos úteis   aos seus semelhantes e aptos para honrarem a terra que os viu nascer”.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Os bonecos de João Abrantes (2)




Nos anos cinquenta, no "centro comercial" do Chiado do Barril de Alva, havia de tudo um pouco: além da venda de mercearias, tecidos, materiais de construção e outros produtos, a taberna situada nas traseiras do edifício servia petiscos e bebidas várias, com predominância de vinho a copo.
No estabelecimento funcionava o posto dos correios e a central telefónica.
No outro lado da rua o Talho Quaresma tinha as suas portas abertas, e mais acima havia outro espaço comercial com negócio multifactado, ao estilo do Chiado, propriedade da família Valentim. O patriarca da família era pessoa de muitos saberes e ocupações - além do exercício da sua profissão, era membro ativo dos corpos sociais da Filarmónica e correspondente de jornais. Junto ao seu estabelecimento, nos dias de folga, jogava-se à “malha”.
A elegante caligrafia de José Valentim pode ser apreciada nas atas das reuniões da Filarmónica Barrilense daquele tempo...
A comunidade do Barril de Alva e arredores tinha à disposição outros estabelecimentos comerciais, a saber: a taberna do “ti Zé” Candosa, a mercearia do Coelho, os serviços do barbeiro António do Vale (o regedor da terra), do tamanqueiro "ti" Albano e de um ferreiro.
… Além da indústria de madeiras, no Barril de Alva houve uma fábrica de bolos secos, propriedade de Joaquim Trindade, e duas padarias.
O nome de João Abrantes é pouco referenciado pelos escrevinhadores que me antecederam no amor à terra onde nascemos, divulgando as suas belezas e mais valias sociais. João Abrantes foi figura única na vida da comunidade por se dedicar ao fabrico de bonecos de papelão, utilizando moldes próprios. Diz a minha vizinha Maria “padeira”, antiga empregada do artista, que este mostrava enorme talento no uso das tintas com que realçava as feições dos seus bonecos.
Periodicamente, João Abrantes enviava algum do produto da sua oficina para um estabelecimento de Coimbra, mas as maiores vendas tinham como destino os Grandes Armazéns do Chiado, em Lisboa.
Outros tempos...
O "Centro Comercial do Barril" até  (?) à independência administrativa 
 (25 de Julho de 1924)

segunda-feira, 21 de março de 2022

O estandarte, a CIEBA, a Comissão pró Turismo, o carteiro, etc

- Entrevista de António Inácio Alves Correia de Oliveira (AIACO) ao jornal “A Comarca  de Arganil”, publicada no dia 29 de setembro de 1933


Primeiro (?) estandarte da Sociedade Filarmónica Barrilense,
oferecido em junho de 1913 pela colónia do Barril residente em Lisboa e Margem Sull do Tejo

AIACO:
- A Comissão de Iniciativa e Embelezamento do Barril de Alva, CIEBA, foi fundada em 25 de novembro de 1931, mas antes, em setembro, eu, de comum acordo com Abílio Custódio do Vale e António Pais de Mascarenhas, resolvemos angariar fundos para a aquisição de 12 bancos destinados ao Largo José Freire de Carvalho e Albuquerque.
Abrimos para esse efeito uma subscrição que foi coberta com o maior entusiasmo. Em poucas horas angariámos o dinheiro preciso para a compra dos bancos e ainda ficámos com um saldo de 240$00. Uma vez adquiridos os bancos e colocados nos seus lugares, o que se deu em novembro e serviu de pretexto para uma festa local, resolvemos transferir o saldo para uma Comissão de Melhoramentos. Demos os necessários passos na mencionada data com 7 sócios.
- Quem são os atuais dirigentes?
- Albano Nunes dos Santos, José Valentim dos Santos Leal, Constantino da Costa Simões, António Nunes Fernandes, José Apolinário de Brito e eu, como delegado em Lisboa. 
Tinha nascido a C.I.E.B.A.
- O que tem feito a Comissão em benefício do Barril de Alva?
- Inaugurou a 1 de fevereiro de 1932, e ainda hoje mantém, a distribuição postal ao domicílio, em julho do mesmo ano mandou construir uma escada em cantaria para o coreto que está no Largo José Freire, e ainda se procedeu à recuperação do mesmo, no que se gastou 725$00; contribuiu com 1.500$00 para a subscrição aberta para a luz elétrica, instalou na sua sede uma biblioteca com cerca de 200 volumes, etc.
(…)
- Há mais necessidades para referir?
- É necessário construir duas estradas, uma partindo do “chalet” Nunes dos Santos até ao Casal Cimeiro e outra da Estrada Nova para o Casal do Meio…” (…).
Sobre o Barril de Alva, diz AIACO:
- Barril, terra linda por seus dotes naturais, necessita alindar-se ainda mais pela mão do homem. Bem simples: caiando todas as casas, para que os visitantes tenham a melhor das impressões (…).
- Como complemento turístico, interessante seria a construção de uma estrada desde a ponte sobre o rio Alva até à nascente da fonte do Urtigal (…).
Nascia a Comissão Pró Turismo do Barril de Alva, com algum impacto na aldeia, como mais tarde se saberá.
AIACO e a Filarmónica, menina bonita dos barrilenses:
- José Monteiro de Carvalho e Albuquerque era um apaixonado por música - foi ele que fundou a Filarmónica nas instalações da sua casa em 1894, e foi ele que ensinou os primeiros executantes e dirigiu a banda durante vários anos . (…) Nos últimos anos a Filarmónica tem tido notável incremento devido ao seu devotado regente, sr. João Martins Vinagre.
- Como é encarada e apoiada pelos barrilenses a Filarmónica?
- O melhor possível, como é de inteira justiça. A colónia (dos barrilenses) de Lisboa e margem sul do Tejo também não a esquecem, e tanto assim é que em 1913 lhe ofereceram um estandarte que custou 84$300 e no ano findo (1932) outro que importou em cerca de 2.000 escudos (…)”
---
É longa a entrevista que AIACO concedeu a Luís Ferreira, publicada no jornal “A Comarca de Arganil” no dia 29 de setembro de 1933.
AIACO deixou correr o pensamento e anunciou projetos associados à CIEBA: em tempo útil, todos eles viram a luz do dia “pelas mãos” da UPBA, União e Progresso do Barril de Alva, fundada em 1935.
A CIEBA foi, naturalmente, a semente da União e Progresso, instituição que, para além de a “construir, foi o lêvedo da própria construção”.