sábado, 5 de março de 2022

Espírito associativo na génese da União e Progresso do Barril de Alva


No dia 17 de março de 1936, Joaquim Madeira, conceituado industrial de panificação de Almada, na sua condição de presidente da direção da União e Progresso do Barril de Alva, concedeu à Comarca de Arganil uma entrevista esclarecedora sobre os primeiros passos da prestigiada instituição, que naquela data, completava um ano de existência.

ESPÍRITO ASSOCIATIVO
- O que determinou essa fundação?- pergunta o jornalista, Luís Ferreira.
- Existia, como é do conhecimento geral, uma comissão de auxílio à Sociedade Filarmónica Barrilense. Os seus fins, de harmonia com o título indicado, eram restritos, limitando-se a auxiliar o simpático agrupamento musical. Em face disto e visto estar criado o espírito associativo entre a colónia barrilense de Lisboa e margem sul do Tejo, alvitrei que se criasse uma coletividade regionalista zeladora dos interesses vitais da freguesia do Barril de Alva…
- E foi bem acolhida a sua sugestão?
- O melhor possível! E tanto assim que em 17 de março do ano findo, e após alguns trabalhos preliminares, houve uma reunião magna da colónia na sede do Grémio da Comarca de Arganil, da qual saiu uma comissão encarregada de elaborar os estatutos para o organismo que se acabara de fundar.
- Foram esses os primeiros passos da União…
- Exatamente. Em 14 de abril seguinte, nova reunião teve lugar, elegendo-se, então por dois anos, os primeiros corpos gerentes e sancionando-se o trabalho da comissão encarregada de redigir os estatutos. E foi assim, legal e serenamente, que a União e Progresso do Barril de Alva se fundou.
Joaquim Madeira acrescenta que, no fim do primeiro ano do mandato, a U.P.B.A. tinha cerca de 70 associados.

RECONHECIMENTO PÚBLICO
Sobre o Barril de Alva, realça que a freguesia está bem servida de algumas benfeitorias: eletricidade, fontanários (exceto no Casal Cimeiro), escola, comércio e pequenas indústrias, etc, havendo carências na rede viária, com  o Casal Cimeiro prioritário e aligação a Pinheirinho - “…um desejo das gentes dos dois territórios, mas só possível com a ajuda do Estado”.
O presidente da União e Progresso, lembrou alguns dos beneméritos da freguesia, a quem o reconhecimento público passaria por dar os seus nomes a algumas das ruas do Barril de Alva, com a colaboração da Câmara Municipal de Arganil, como posteriormente aconteceu.

OFERTA DO INSTRUMENTAL  À FILARMÓNICA
A finalizar, Joaquim Madeira refere;
- Os dois primeiros filhos do velho fidalgo do Barril, sr, José Freire de Carvalho Albuquerque, foram de uma benemerência inexcedível. Ao terceiro deve-se a nova capela de Santo Aleixo e a calçada que liga o Casal de Baixo ao Casal do Meio…
- A Sociedade Filarmónica Barrilense pode contar com o apoio da União?- questiona o jornalista.
- Sem dúvida! Em tudo quanto possamos, pode contar connosco. E bem o merecem os seus 41 anos de existência. A propósito, devo dizer-lhe que o instrumental de que dispõe foi oferta de dois beneméritos a quem contamos prestar homenagem no próximo mês de julho: António Freire de Carvalho Albuquerque e José Monteiro de Carvalho Albuquerque.




quinta-feira, 3 de março de 2022

Março de 1979 - Inauguração da sede da Filarmónica Barrilense

  “…que os acordes metálicos não feneçam com os maus ventos”

O jornal “ A Comarca de Figueiró”, de Figueiró dos Vinhos, publicou no dia 10 de abril de 1979 uma excelente reportagem sobre a inauguração do edifício sede da então Sociedade Filarmónica Barrilense, que decorreu no dia 18 de março  daquele ano

O trabalho jornalístico, extenso e pormenorizado, pode ser visto como um justo louvor ao Barril de Alva e às suas gentes daqueles tempos, pois “é preciso, efetivamente, possuir uma têmpera muito, muito especial, ter um campo de manobra muito prestigiado, guardar muitas amizades vincadas e sobretudo ter muita confiança no inegável bairrismo dos seus conterrâneos, para se terem cometido a tão ingente tarefa” – acentua o autor da reportagem, que assina, simplesmente, Marçal.

Da grande festa do sarau inaugural, na noite do dia 17 do mesmo mês, recordo a presença do “(…) excelente conjunto Esquema 6, de Lisboa (que tinha como líder o barrilense Armando Bernardo), a consagrada Cândida Branca Flor, Jorge Quaresma, Sissi e Zé Portugal (…).

Marçal tinha razão: só foi possível a vinda deste punhado de artistas, sem custos, quando se tem “(…) um campo de manobra muito prestigiado, guardar muitas amizades vincadas (…).
Não tarda, passa mais um aniversário sobre a data da inauguração do emblemático e grandioso edifício.
C.R.


Respigos do texto
- Lembrando o comendador Luís Bento Suzano

“ (…) Alvoreceu o domingo, dia 18 de março de 1979, com a Filarmónica Barrilense percorrendo as ruas (do Barril de Alva) e cerca das 10 horas chegou a Filarmónica Figueiroense, gentilmente convidada, numa confirmação das excelentes relações que identificam as duas Filarmónicas (…)”.

“ (…) a povoação vestiu as melhores galas para a inauguração da nova sede da Filarmónica Barrilense, reafirmando o acrisolado bairrismo e o sentimento das suas gentes, espírito que escorreu em caudal e inundou a alma e o coração desse maravilhoso casal de beneméritos constituído pelo comendador Luís Bento Suzano e sua extremosa esposa D. Maria Josefa Suzano, porquanto, ao bondoso casal se ficou devendo a motivação que alvoroçou e aqueceu os sentimentos dos barrilenses (…)”.

“ (…) Foi então que uma sensacional revelação chega ao conhecimento de todos: (António Inácio Alves) Correia de Oliveira aproxima-se do microfone e anuncia que o comendador Luís Bento Suzano oferecia 100 contos à Sociedade Filarmónica Barrilense (…)”!

Barrilense por herança, a palavra de Adalberto Gens da Costa Simões:
Quem dera que os saudosos fundadores da Sociedade Filarmónica Barrilense (…) pudessem ver das alturas este autêntico “milagre”, força monetária de dois entes diletos, acolitados pelo querer e hercúlea vontade de um bom punhado de bons amigos e quase todos barrildalvenses, entre os quais a dinâmica Comissão de Almada (União e Progresso do Barril de Alva, na altura com um ano de existência), que em peditórios, leilões, piqueniques e “a tostão a tostão” ergueram um edifício impar no concelho de Arganil em glória da sua “menina bonita” para que os seus acordes metálicos não feneçam com os maus ventos e ecoem por esses montes além”.

(António Inácio Alves) Correia de Oliveira falou seguidamente da obra inaugurada, dos sacrifícios exigidos a todos os barrilenses, (…) e com o entusiasmo galvanizante que o carateriza, Correia de Oliveira concluiu:
- As nossas gratidões mantêm-se sempre vivas porque OS BARRILENSES SÃO ASSIM”!
-

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

"Os Barrilenses são assim"

António Inácio Alves Correia de Oliveira (AIACO), regionalista convicto e amante incondicional do Barril de Ava, onde nasceu, algures no tempo entendeu que a melhor forma de glorificar a sua paixão e dos seus conterrâneos, que durante décadas alimentaram e concretizaram sonhos, passava por associar ao espírito solidário e altruísta uma frase lapidar:
- “Os Barrilenses são assim”!
O lugar do Barril, desde 1527 (?), foi vencendo obstáculos até obter, por direito próprio, a sua autonomia administrativa em 25 de Julho de 1924, quando “nasceu” a freguesia do Barril de Alva...
Abril de 1974 trouxe ao País mudanças políticas, rasgou horizontes…
Graças à profícua atividade da União e Progresso do Barril de Alva, UPBA, fundada em 17 de março de 1935 – a quem se devem alguns dos melhoramentos concretizados na extinta Freguesia -, era de inteira justiça manter viva a frase criada por AIACO:
- “Os Barrilenses são assim”!
Nos tempos de agora, sopram novos ventos, mudaram-se hábitos e costumes, o Barril de Alva tem menos habitantes, à UPBA faltam cooperantes – o élan da comunidade, aos poucos, foi perdendo força…
Perante a realidade, hoje é razoável evocar as palavras de AIACO?
- Sim, quando mais não seja para “manter de pé” a memória do autor, que permanecerá eterna no frontispício da CASA / MUSEU 
-“OS BARRILENSES SÃO ASSIM”!
… E também pela “mão cheia” de orgulhosos barrilenses que continuam a recordar António Inácio Alves Correia de Oliveira como referência no amor ao seu torrão natal.



domingo, 17 de outubro de 2021

O sonho que ousei (1)

 
Sou avesso à exposição de alfaias agrícolas e outros objetos enquanto regra, como se o passado estivesse reduzido ao trabalho rural, de sol a sol. Todas as aldeias, como a minha, têm uma História que não pode ser contada apenas e só pela visão de um arado, de um ferro de engomar, de um prato recuperado com agrafos (chamavam-lhe "gatos"!), de um alcatruz, etc, etc - podia continuar a citar objetos usados pelos nossos antepassados, trazendo à memória um pouco da minha infância, repartida pela aldeia e umas quantas visitas a Almada, onde tinha familiares. O sonho ocupa-me a mente quando recortes da "Comarca de Arganil" - com a bonita idade de mais de um século! - ou imagens como a que escolhi para ilustrar esta croniqueta chegam às minhas mãos. "Lavadeiras" - chamo-lhe assim porque a fotografia retrata a ocupação de algumas mulheres durante determinado período do verão quando os "senhores do Chiado" vinham passar férias ao palacete da família Nunes dos Santos, agora em ruinas ( ou quase…). Acrescento: os fundadores dos Grandes Armazéns do Chiado, de boa memória, eram naturais daqui, do Barril de Alva, uma aldeia maneirinha nos seus 3,3 kms, bem servida de acessos e de outros pequenos "luxos", que se orgulha do "seu" rio Alva e de algumas das pessoas que por cá ergueram obra de relevo, a vários níveis, tendo em vista o bem-estar do povo. Dos sonhos que, publicamente, ousei publicitar destaco um: fazer da sala Multiusos AIACO, no edifício da antiga escola primária, uma sala de memórias, expondo documentos que permitissem (re) descobrir as nossas origens e "conviver" com os antepassados que, com “engenho e arte” ajudaram a crescer a aldeia onde nasci. Ousar o sonho é “fantasiar” o futuro incerto. 
Como perdi a “fantasia” de sonhar, passo adiante…

-(1) Croniqueta adaptada do texto publicada em novembro de 2011, com o título “Sala de Memórias” -http://ritualmente.blogspot.com/2011/11/sonho-uma-sala-de-memorias-o-nome-tem.html

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Tributo à benemência



Estamos em junho de 1965.

A União e Progresso do Barril de Alva, UPBA, deseja erguer um obelisco no largo da escola e precisa da autorização do ministro da Educação para levar por diante as suas intenções, depois do projeto ter sido aprovado pela Câmara Municipal de Arganil.
No dia 13 daquele mês de junho segue a carta protocolar, onde muito respeitosamente “… vêm à presença de V-Exª. solicitar a autorização necessária para que esta coletividade possa homenagear os beneméritos locais, muito especialmente aqueles que construíram o edifício escolar a suas expensas e o entregaram ao Estado mediante escritura de doação em 8 de junho de 1913…”. Junta-se a planta do obelisco e a indicação de que a sua inauguração “se pretende inserir no programa do 30º aniversário da UPBA”.
O ofício da Direção do Distrito de Escolar de Coimbra, datado de 14 de setembro do mesmo ano, informa que “… por despacho de 8 do corrente foi autorizada a implantação do obelisco…”, e acrescenta, “preto no branco”:
- A Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias emite o parecer "de que a parcela triangular que será subtraída ao logradouro para aquele efeito pode ser ajardinada, com o que beneficiará todo o conjunto”.
Entre outras, sobre a “Estética do Belo”, prefiro a definição (resumida) de São Tomás de Aquino: “a coisa completa”, bonita, perfeita
… como um jardim “arrumadinho”, com ou sem obelisco. Este foi inaugurado no dia  25 de julho de 1965.
*

Requalificação do Largo Alberto Martins de Carvalho (ex-"Largo da Escola") - composição geométrica do monumento que honra o bairrismo e  a benemerência dos barrilenses - maio de 2012

sábado, 25 de setembro de 2021

"O Prédio dos Bonecos" de Joaquim Mendes Correia de Oliveira


Joaquim Mendes Correia de Oliveira, esposa  e filho  - António Inácio Alves Correia de Oliveira, A.I.A.C.O. - junto ao seu palacete, ainda  de pé e habitábel,  conhecido omo "Casa dos Bonecos *"

Joaquim Mendes Correia de Oliveira , barrilense, pouco referenciado, é certo, mas pelo merecimento da sua generosidade justifica encómios e destaque de “primeira página”, como o Governo da República reconheceu em 1913:

Diário do Governo n.º 57/1913, Série I de 1913-03-11 Ministério do Interior - Direção Geral da Instrução Primária.

Portaria de 8 de Março" (…) louvando o professor da escola do lugar do Barril e o cidadão
Joaquim Mendes Correia de Oliveira 
por serviços relevantes prestados à instrução e educação cívica nacionais"

A Junta de Freguesia do Barril de Alva, em 1924, também não deixou de lhe prestar justa homenagem ao atribuir o seu nome a uma das primeiras ruas da aldeia… 
Joaquim Mendes Correia de Oliveira emigrou para Belém do Pará, no Brasil, onde fez fortuna. De regresso a Portugal, construiu de raiz um soberbo palacete na sua terra natal, ainda de pé e habitável. O edifício é conhecido pela “prédio dos bonecos” pelo facto da decoração do beirado ostentar peças de estatuária. 
A talhe de foice, refira-se o pormenor de ter sido em 1911 residência temporária durante uma visita à região do ministro do Fomento da República, Brito Camacho. 
A benemerência do nosso conterrâneo estendeu-se à construção 
- do esplendoroso edifício da escola primária do Barril de Alva, em parceria com José Freire de Carvalho e Albuquerque, Abílio Nunes dos Santos e Joaquim Nunes dos Santos; 
- da antiga sede da Filarmónica Barrilense (agora, depois de recuperada acolhe um projeto cultural de inegável importância na comunidade: a Casa/Museu “OS BARRILENSES SÃO ASSIM”, frase emblemática dita vezes sem conta pelo seu filho A.I.A.C.O); 
- da igreja matriz do Barril de Alva, que tem como orago S. Simão. 
Infelizmente, Joaquim Mendes Correia de Oliveira faleceu relativamente novo. 
A lista de pessoas de bem fazer, não sendo extensa pela leitura das marcas de avultadas obras, é, no entanto, enorme pelo espírito solidário de quem nasceu barrilense ou sente como sua esta mesma “pátria”. 
-
*  Junto ao telhado foram colocadas  estatuetas de média dimensão, elementos decorativos que  representam (?) as estações do ano. O edifício, para todo o sempre, ficou conhecido como "Prédio dos Bonecos".