sábado, 4 de junho de 2022

Meninas ao bufete


Havia o “mandador” e o tocador de guitarra.
Os homens pagavam a entrada para o baile, as senhoras, não, quando acompanhadas – é o que as pessoas daquele tempo, de boa memória, recordam.
A mãe Natália pedia ao Américo “cigarrada”, nosso vizinho, para “…levar o miúdo”, caso fosse ao bailarico. O miúdo, é bom de ver, era eu, com falta de jeito para a arte da dança, ao contrário da Tété, menina da minha idade (oito, nove anos?).
Às vezes, a Tété, danada para a brincadeira, puxava-me o braço…
- Anda, vamos dançar – e “rebocava-me” para ao meio da sala…
Apertos e “pés trocados” durante algum tempo era o bastante para voltar ao lugar de onde apreciava o gingar dos pares…
Sem talento para acertar o passo, “aquele baile” não era do meu agrado, confesso…
O “meu baile” preferido tinha música ao vivo e a voz do “mandador”, que “dava ordens” aos dançarinos: “vira para a esquerda, vira para a direita… voltinha atrás de voltinha…”- toda a gente cumpria as regras do “baile mandado” com sorrisos e, acredito, felizes pela festa.
… O melhor de tudo era quando o “mandador/mandava” as…meninas ao bufete!
Era o momento dos bolinhos secos e molhar a garganta, dançarinos e público em geral, eu incluído.
- Ó Américo, olha-me pelo miúdo, compra-lhe um bolo, depois eu dou-te o dinheiro - era a mãe Natália nos seus cuidados…
-
A guitarra do “baile mandado” daquele tempo, durante largas décadas, esteve na posse dos “Bernardos”- agora repousa em cima da minha mesa, à espera de outro Bernardo - o Avelino -, que lhe vai “puxar o lustro”.
… Depois irá ocupar um dos lugares de honra da “Casa/Museu”.
Gratidão ao Armando Bernardo pela gentileza do gesto…
CR

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Filarmónica Barrilense - os primeiros executantes sob a batuta de António Augusto



Existe o conhecimento da fundação da S.F.B., do seu mentor, José Monteiro de Carvalho e Albuquerque, amante da arte musical e primeiro instrutor/professor do Grupo Musical a que deu "corpo e alma", mas havia silêncio sobre os passos que se seguiram; na verdade, os silêncios eram infundados - basta subir ao primeiro andar da sede da Associação Filarmónica Barrilense e conhecer, pela leitura, como (quase) tudo aconteceu: a reportagem do jornal "A Comarca de Arganil", quando a instituição completou cinquenta anos de vida, relata factos, cita nomes e dá uma "ajuda" sobre o "desconhecido" António Augusto, mestre da Banda:
- “Sob a regência de António Augusto, compôs-se o primeiro agrupamento musical (da Quinta de Santo António), que mais tarde seria a Sociedade Filarmónica Barrilense. Faziam parte desse grupo: José Maria de Paiva, José Candosa, José Luiz Quaresma, Francisco Simões, José Correia, António de Brito Simões, António Rijo (…), Francisco Rijo, António Joaquim, Albano de Brito Simões e Joaquim do Vale.
A sua estreia, fora da terra, para abrilhantar uma festividade, foi a de Santo Cristo, de Pinheiro (...)”.
       José Valentim
Justa referência são as palavras dirigidas a José Valentim dos Santos Leal - comerciante e correspondente de Imprensa no Barril de Alva- “… nome que está ligado à Sociedade Filarmónica Barrilense há muitos anos, foi o seu “cérebro” durante vinte anos; homem preponderante, de um valor inexcedível adentro dos organismos barrilenses…”.
(Luiz Ferreira, reportagem do jornal "A Comarca de Arganil" pela passagem do cinquentenário da S.F.B.)
A.F. Cruz
-





Da minha lavra, dou à estampa a figura e o nome de A.F. Cruz, que (também) foi maestro da S.F.B., pelo menos no ano de 1927.
…O leitor, “por obra do acaso”, conhece o Museu da Associação Filarmónica Barrilense?
CR  





quarta-feira, 25 de maio de 2022

Abertura do Centro Comercial do Barril

 Edição da "Comarca de Arganil" de 9 de novembro de 1922:

"No próximo  dia 19 do corrente, os nossos ilustres  conterrâneos srs Nunes dos Santos & Cª, proprietários dos Grandes Armazéns  do Chiado,  vão inaugurar uma nova  filial da sua importantíssima casa na próspera e linda povoação que é o Barril, sua terra natal".







Na imaginação do artista,  seria assim  a filial dos Grandes Armazéns do Chiado quando o Barril de Alva fosse terra de muita  gente, cosmopolita – do tamanho dos sonhos  dos irmãos Nunes dos Santos, fundadores  do seu  “império”, com sede em Lisboa,  principais obreiros de muitas das grandes obras concretizadas na aldeia onde nasceram.  Gratidão maior pelos sonhos que sonharam…


Alberto Martins de Carvalho - o "Mestre"...


Era  menino quando ingressei no Liceu D. João III, em Coimbra.
Certo dia, durante uma aula, entrou na sala o Dr Alberto Martins de Carvalho - cumprimentou o seu colega professor e "...todos os meninos"; de seguida quis saber quem era o Carlos Ramos: levantei a mão e estiquei o dedo!...
Publicamente, com gentileza, deixou-me recados - se dele tivesse alguma precisão, que o procurasse na sala "x"...
O torrão natal de ambos é o Barril de Alva. A escola primária onde aprendemos as  "primeiras letras" foi a mesma. 
As nossas famílias eram afetivamente próximas. Lembro a mãe Natália dizer que, em Coimbra, ia ter a ajuda do "... senhor doutor Martins de Carvalho, com quem já tinha falado... ".
C.R.
___

Alberto Martins de Carvalho -  o "Mestre"
... é natural do Barril de Alva, onde nasceu a 30 de Dezembro de 1901.
Casou com Judite Sinde, de Coja, e licenciou-se simultaneamente em Direito e Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra.
Fez a sua instrução Primária no Barril de Alva, prosseguindo estudos liceais em Coimbra, no Liceu Dr. Júlio Henriques.
Foi professor metodólogo na atual Escola Secundária José Falcão (Coimbra) e exerceu, igualmente, funções docentes em Aveiro.
Alberto Martins de Carvalho foi autor de inúmeros artigos em dicionários, guias, livros e revistas, prefaciando, traduzindo e anotando outras obras. O seu nome também se liga à autoria de livros de temáticas variadas.
Articulista nas revistas Presença e Palestra, pertenceu à direção da revista Bysancio e também colaborou com a revista Manifesto e o jornal Humanidade. Usou, em várias ocasiões, o pseudónimo de Carlos Sinde.
Nas décadas de 20 e 30 do século passado, foi um dos grandes vultos intelectuais de Coimbra, privando com nomes como Miguel Torga (a quem apresentou Fernando Valle), Paulo Quintela, Vitorino Nemésio, José Régio e outros, não obstante o seu carácter reservado e discreto.
Esteve na origem da criação das Universidades Populares, na I República.
Foi Diretor do Centro de Estudos Pedagógicos do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1975 e 1993.
Também por sua iniciativa, foi constituída a Biblioteca Fixa nº 95 da Gulbenkian, em Coja, em 1965, sob a égide dos Bombeiros Voluntários locais. Em 8 de Setembro de 2001, por proposta de Mário Valle, a Câmara Municipal de Arganil atribui-lhe o nome da Biblioteca cojense, sendo também patrono da Biblioteca da Escola Secundária José Falcão.
Faleceu na Figueira da Foz, a 26 de Março de 1993, cidade onde se encontra sepultado.


terça-feira, 24 de maio de 2022

Pelos Caminhos de Torga

 A razão de Miguel Torga merecer realce na toponímia do Barril de Alva







Dez da manhã do dia 23 de Maio de 2015, no Barril de Alva, junto à ponte, local onde Miguel Torga, em  Setembro de 1942, se debruçou sobre o "beirão" rio Alva. Talvez no mesmo local onde escreveu...


SAUDAÇÃO
Não sei se comes peixes, ou não comes,
Irmão poeta Guarda-Rios:
Sei que tens o céu nas asas e consomes
A força delas a guardar rios.
É que os rios são água em mocidade
Que quer correr o mundo e conhecer;
E é preciso guardar-lhe a tenra idade,
Que a não venham beber ...
Ave com penas de quem guarda um sonho
Líquido, fresco, doce:
No meu livro te ponho,
E eu no teu rio fosse
-
Miguel Torga, in Diário II, Barril de Alva, 28 de Setembro de 1942