quarta-feira, 13 de julho de 2022

A "Opereta" do maestro João Vinagre

Maestro João Vinagre, elementos do Grupo Cénico e filarmónicos

Em novembro de 1946, a Sociedade Filarmónica Barrilense, durante o seu 52º aniversário, homenageou o seu carismático maestro, entre 1930 a 1944, João Martins Vinagre, a quem a instituição ficou a dever momentos de exaltação artística, como adiante se relata através de excertos de uma “recordativa mensagem”, brochura ricamente ilustrada, assinada pela totalidade dos executantes da Filarmónica e elementos ativos do Grupo Cénico, que lhe foi entregue no momento da “inauguração da sua fotografia na casa do ensaio”.
Recorda-se:
Quando a nossa coletividade se encontrava deveras desorganizada e em decadência, mesmo à beira do abismo, assumiu a responsabilidade de recompor o conjunto musical…”.
“Compreendido nas suas intenções de fazer mais e melhor que no passado, depressa se insinuou, criando fama e respeito de tal forma que, em pouco tempo, apresentava em público além da música bem tocada, outras modalidades de atração e recreativas com as quais conseguiu magníficos resultados e bastos aplausos…”
“(…) Para diferenciar os programas artísticos que idealizava sem longos compassos de espera, na esperança de proporcionar ao auditório mais distrações interessantes e culturais, organizou com o encargo de ensaiar, o “Grupo Cénico” que deu algumas récitas e saraus no antigo “Cine Teatro Barrilense”, de saudosa memória, e a pedido noutras localidades circunvizinhas. Desses agradáveis espetáculos recordamos com saudade a representação de uma Revista / local, com letra e música da sua autoria, assim como outros números que causaram sucesso...”.

Revista à portuguesa” ou “Opereta
A “recordativa mensagem” é, toda ela, da redação da ideia com que se homenageia o maestro Vinagre à caligrafia, em itálico, uma vénia às suas qualidades artísticas, disponibilidade de pedagogo e espírito de sacrifício.
Agora, o destino, através de um amigo do peito, Armando Bernardo, deixou nas minhas mãos as partituras da obra, que o autor do reconhecimento público apelida de “Revista /local” – (peça de teatro, de crítica a factos, costumes e tipos conhecidos). João Vinagre, por seu turno, chamou-lhe “Opereta” - (espécie de ópera ligeira, de texto simples e feição popular).
Esta “Opereta”, depois da introdução musical, está dividida em vários quadros, cada um com o seu título: “A nossa terra”, “Fado”, “Canção das rosas, “Flores de abril”, “Serenata” e “Saudação ao Barril - tema que encerrava o espetáculo, e ainda na memória do tempo quando os barrilenses se (re) encontram com a sua Filarmónica.
Pela “voz” do saxofone, o Armando  desenrola os andamentos e encanta-me com a sonoridade das notas: umas “alegres e corridas”, outras  “suaves e intimistas”…
Diz ele, o meu amigo do peito:
- Com saúde, tempo e a indispensável ajuda de outros músicos, sou capaz de “tocar aquilo tudo”…
Faltam as letras e as vozes – mas isso também se arranja: ”os Barrilenses são assim”! - ou não fossemos herdeiros de “(…) teimosos e cabeçudos Beirões, como disse o poeta Miguel Torga, a propósito da construção do Teatro Alves Coelho, em Arganil, “erguido por teimosos e cabeçudos Beirões, da mesma maneira que antigamente se construíam as Catedrais, trazendo cada um a sua pedra”.
… Então, que comecem os ensaios da “Opereta”… ou da “Revista /local”!
CR

segunda-feira, 4 de julho de 2022

João Maria Tudela, autor da "Marcha do Barril de Alva"

A marcha "Saudação ao Barril", dizem os menos novos na idade, é a autêntica marcha do Barril de Alva - pelo menos a mais popular, é. No entanto, existe um outro tema, menos conhecido, intitulado "Marcha do Barril de Alva", com letra e música de   João Maria Tudela, músico e cantor,  famoso na época por ter interpretado vários êxitos, como a canção "Kanimambo" ("Obrigado"), com música do maestro Artur Fonseca e letra do poeta Reinaldo Ferreira.
Esta dupla de autores (com a colaboração de Vasco Matos Sequeira) deu "corpo e alma" a outro grande êxito da nossa música ligeira, intitulado "Uma Casa Portuguesa", que Tudela também interpretava com sucesso.
Na então capital de Moçambique, Lourenço Marques, a Cervejaria Coimbra era, talvez, o estabelecimento mais famoso da época, ponto de encontro obrigatório das gentes oriundas da região de Arganil. O seu proprietário, de nome António Silvestre, era natural do Barril de Alva.
...Imagine-se o "nosso" António Silvestre a comentar as belezas da terra natal junto dos clientes - Tudela, por certo, "foi provocado", "aceitou o desafio" e escreveu " A Marcha do Barril de Alva".



"Marcha do Barril de Alva
Esta marcha vai
Na rua a passar
No Barril de Alva
Toda a gente sai
Para a ouvir cantar
Cantai raparigas
Que as vossas cantigas
É que vão ganhar
Toda a gente canta
A todos espanta
Porque é popular

Tanto no Casal do Baixo
Como no Casal de Cima
Toda a gente se quer bem
E toda a gente se estima
Se alguém te quiser mal
Não tens nada que temer

Pois lá tens o regedor
Pois lá tens o regedor
Que te há de defender
-
(Arquivos  A.I.C.O.)

quinta-feira, 30 de junho de 2022

"Saudação ao Barril"


 A marcha  com que  a nossa  Filarmónica   honra a terra onde nasceu, foi criada pelo  mestre  João Martins Vinagre  e intitula-se  "Saudação ao Barril". O documento  em anexo é original  e faz parte do espólio de um  antigo músico da nossa Banda.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

As capelinhas

Em 1721, no Barril, estavam de pé três ermidas: duas delas erguidas em montes sobranceiros ao rio, e a terceira bem no centro do pequeno povoado.
…Sobre a localização das ermidas em honra de Santa Maria Madalena e Santo Aleixo:
- Não guardariam elas, as ermidas, os santos da devoção dos “senhores da Casa do Barril (Quinta de Santo António),"donos de terras até ao rio”?
Lá dos altos, descansa-se o olhar sobre a paisagem e adivinham-se as sementeiras, que as águas do Alva faziam crescer… com a “ajuda dos santos protetores”!
 

- Quem ordenou a construção das duas ermidas em locais relativamente remotos, mas com vistas largas?
- Os senhores da Quinta, certamente...
O povoado, junto da ermida de S. Simão, cresceu com a Quinta de Santo António, servida por uma capelinha privada (em honra do santo padroeiro da Quinta?).
Em redor das outras duas, não muito distantes da terceira, onde se acredita ter nascido o Barril, surgiram outros polos residenciais.
O Barril de Alva é formado pelo conjunto dos três casais - em tempos idos, para que as pessoas fossem identificadas com os locais de residência, bastava anunciar o “seu casal”: 
- Cimeiro, do Meio, ou Fundeiro.

sábado, 25 de junho de 2022

Últimos "senhores da Casa do Barril"


 Figuras principais com vínculo ao Barril a partir de 1753

- Luís Marques de Sequeira, natural de Vila Cova foi capitão-mor da dita vila. Faleceu em 21 de novembro de 1757.

Foi casado com D. Maria Madeira de Sequeira, em primeiras núpcias, e a segunda vez com D. Engrácia Luísa Freire Faria Geada, natural de Folques.

...Do segundo casamento nasceu no Barril em 21 de janeiro de 1753, (existe outra referência que aponta Vila Cova de Sub – Avô)

- Bento José Freire de Faria Geada; como seu pai, foi capitão-mor de Vila Cova e morreu em 22 de outubro de 1832. Teve brasão de armas dado por D. Maria em 8 de novembro de 1785. Foi casado com  D. Isidora Bernardo Joaquim de Abreu, natural de Paranhos, concelho de Seia.

Ambos eram herdeiros do Vínculo do Barril (Quinta de Santo António).

Quando casaram foram residir na Quinta de Santo António, deixando a sua casa de Vila Cova.

O filho,   dr. José Freire de Faria Sequeira Coelho, também foi capitão-mor de Vila Cova e morreu em 1855. Foi casado com D. Maria do Carmo de Sampaio de Albuquerque, natural de Tourais, concelho de  Seia. Após o casamento Foram residir para a casa dos seus pais na Quinta de Santo António em maio de 1831.

- D. Maria José Freire Cortês de Carvalho e Albuquerque, filha do casal, senhora do Vínculo da Quinta de Santo António, nasceu em 1822,  no Barril,  e faleceu  a 13 de Fevereiro de 1890 - em Folques. Foi casada com seu primo em segundo grau José Monteiro de Abreu Lopo, natural de Casais do Campo, São Martinho do Bispo, Coimbra. Esta senhora foi viver para Folques quando o seu filho, José Freire de Carvalho e Albuquerque, se casou e ficou a residir na Quinta de Santo António.

- José Freire de Carvalho e Albuquerque foi pessoa de prestígio no concelho de Arganil, como nobre fidalgo e pelas qualidades do seu caráter. Exerceu as funções de Presidente da Câmara do concelho em 1903. Nasceu no dia 8 de abril de 1839, e faleceu em 4 de janeiro de 1916. Foi casado com D. Maria Emília Freire de Amorim Pacheco, do Sarzedo.

Do casamento nasceram dois filhos:

- António Freire de Carvalho e Albuquerque, nasceu na Casa do Barril a 29 de dezembro de 1892, e faleceu em Lourenço Marques, Moçambique, a 7  de janeiro de 1968. Foi o último senhor da “Casa do Barril”/Quinta de Santo António. 

- José Monteiro de Carvalho e Albuquerque, nasceu na Casa do Barril a  9 de janeiro de 1867, e faleceu a 1  de outubro de 1929 na Casa  do Boiço, Oliveira do Conde.

* Foi o fundador da Filarmónica Barrilense em 1894.

* No 12 de julho de 1931 foi inaugurado o “Cine Teatro Barril de Alva”, criado e mantido por si.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Onde "nasceu" o Barril (de Alva)?

 Dois dedos de conversa...



Uma teoria, simplesmente…
A curiosidade, parceira da paciência, clicou nas teclas onde lhe pareceu existir fartura de “pescado”, que era pouco, como acontece com a diversidade das espécies piscícolas do Alva (Alba, ou Albul,), o rio que nos sacia a sede, é atração turística e fronteira de territórios.
No entender de alguma lógica, amadurecida pela leitura de muitas estórias - das que a História se apossa sem regras, entre lendas, especulações e meias verdades -, “a minha teoria” sobre a origem do lugar do Barril reside na margem direita do rio Alva - no Urtigal!

Sem balelas …
O sítio do Urtigal, bem localizado para servir a população de Vila Cova, que foi de Sub - Avô, com acesso facilitado pela largueza do leito do rio, a jusante do açude, faz acreditar que o local teria sido uma verdadeira “zona industrial”, transformando cereais em farinha e azeitonas em azeite - sem esquecer a caça e a pesca, abundantes e variadas…
O moleiro, responsável pelo bom funcionamento dos engenhos, tinha casa de habitação com dois pisos e razoável conforto - na aldeia ainda há memória de quem por lá mourejou e criou filhos...

Apenas uma lenda (ou não)
A lenda do moleiro reforça a minha teoria. Recordemos “o que se dizia por aí”:
- “Reza a estória de passa palavra que, certo dia, o rio Alva teve uma grande cheia. Um moleiro, ao reparar que as águas arrastavam barris de vários tamanhos, com a ajuda de uma vara conseguiu arrastá-los para a margem.
Nesse ano, a produção de vinho foi de tal modo elevada que as pessoas esgotaram o vasilhame e recorreram ao moleiro, com quem fizeram negócio. Por essa razão, passou a ser conhecido pelo “moleiro do barril”!
Possivelmente, a lenda tem como protagonista o moleiro do Urtigal...

Continuando a especular…
…sobre um tempo sem referências de autenticidade, quero acreditar que o lugar do Barril “nasceu” com a propaganda desta lenda… depois de um familiar do “moleiro do barril”, ou o próprio, talvez tomado de amores por certa dama de Vila Cova, ou das vizinhanças, ter caminhado pela margem direita do rio, na direção da foz, até encontrar um local “encantado”, não muito longe da “zona industrial”, para construir o seu “ninho”…
A voz do povo, creio, passou a identificar o lugar pela memória do negócio do moleiro, como reza a lenda. Ficou Barril, e não se fala mais nisso!
- Na minha romântica imaginação, a estória deve ter acontecido nos primórdios da ascensão de Vila Cova de Sub – Avô, terra fidalga, com História digna de ser conhecida, quanto mais não seja para que possamos encontrar alguns dos nossos passos a caminho da independência administrativa, consumada no ano de 1924.

De volta ao Urtigal e ao Barril
A área constituída pela habitação familiar do moleiro, terras de cultivo e instalações industriais, em dada altura, passou a ser conhecida como Quinta do Urtigal – é este o topónimo que consta no arquivo do antigo Cartório Paroquial de Vila Cova de Sub – Avô, de onde o saudoso padre Januário extraiu preciosas informações.
Convém não esquecer que o lugar do Barril e toda a zona ribeirinha estiveram sobre a alçada administrativa de Vila Cova durante muitos, e muitos anos.
Em 1721, no Barril, estavam de pé três ermidas: duas delas erguidas em montes sobranceiros ao rio, e a terceira bem no centro do pequeno povoado.
Permito-me especular de novo, agora sobre a localização das ermidas em honra de Santa Maria Madalena e Santo Aleixo:
- não guardariam elas, as ermidas, os santos da devoção dos “senhores da Casa do Barril, donos de terras até ao rio”? Lá dos altos, descansa-se o olhar sobre a paisagem e adivinham-se as sementeiras, que as águas do Alva faziam crescer… com a “ajuda dos santos protetores”!
Quinta do Urtigal 
A casa  do moleiro na encosta e as
 rodas (2) dos engenhos
- Quem ordenou a construção das duas ermidas em locais relativamente remotos, mas com vistas largas?- Os senhores da Quinta, certamente...
O povoado, junto da ermida de S. Simão, cresceu com a Quinta de Santo António, onde existia uma capelinha (em honra do santo padroeiro da Quinta?).
A devoção religiosa dos senhores da "Casa do Barril" não merece  dúvidas...
Em redor das outras duas ermidas, não muito distantes da terceira, onde se acredita ter nascido o Barril, surgiram outros polos residenciais. O Barril de Alva é formado pelo conjunto dos três casais – em tempos idos, para que as pessoas fossem identificadas com os locais de residência, bastava anunciar o “seu casal”: Cimeiro, do Meio, ou Fundeiro.

Agora…
O registo toponímico de 2013 atualizou os nomes das ruas, largos e caminhos, novos casais, ou bairros, além de atribuir os números de polícia a todos os imóveis, como mandam as Leis e o progresso exige.
Em resumo: “dois dedos de conversa” não alinhavaram grande coisa sobre as raízes do povo de onde venho através do sangue de Joaquim Pereira, o moleiro, com “oficina” na Picota – fica a intenção.
C.R.