segunda-feira, 20 de junho de 2022

Barril de Alva - "Uma Terra da Beira"

"Uma Terra da Beira" - artigo escrito pelo  dr. Alberto Martins de Carvalho  e publicado em 1934  no Jornal "A Comarca de Arganil", a  propósito  do desenvolvimento  do Barril Alva.
Pela leitura, o reconhecimento da obra feita  "... com verdade e justiça..." - palavras  do autor,   barrilense  ilustre, como outros  dos nossos patrícios,  de acordo com as suas qualidades e competências...
Vale a pena interiorizar a prosa   para que possamos valorizar o  legado dos nossos antepassados.




  
"Sinto quanto é difícil escrever sobre a nossa terra, quer seja a meia dúzia de linhas dum artigo de página regionalista, quer a história geral duma nação. Pesa-me agora a primeira dificuldade; a segunda, a outros vários tem pesado. Custoso, se não impossível, ser-se objetivo, já que tudo o que diz respeito ao homem e à medida - na frase de um velho pensador - do mesmo homem…
Tornam-se imprescindíveis estas reticências porque me falta o à vontade ao escrever sobre Barril d’Alva, coisa parecida a lançar a público um autoelogio…
Salva-me em parte o facto de haver lá, como noutras povoações, um grupo de homens dedicados e voluntariosos que se deram o encargo de tornar conhecido o que há de bom, o que se faz, o que deve ainda fazer-se.
Esse “Secretariado de Propaganda Local” poupa-me o trabalho ingrato de contar – melhor seria dizer “cantar”… - as belezas e superioridade desta aldeia ribeirinha do Alva. Muito louvavelmente se vão desempenhando de tal missão e reconheço que a gratuidade dos seus esforços não é isenta de sacrifícios, de dissabores.
Mas arredado esse motivo fácil duma prosa ligeira, não vejo a que agarrar-me para continuar. Porque, enfim, isto deve ser um artigo simples, mas com ar festivo. E numa casa em festa, ai do impertinente que tirasse do bolso uns óculos e um caderno de almaço e fosse a história da habitação ou a maneira como tinha sido construída e retocada pelos sucessivos inquilinos.
Aceitando mesmo que os convivas tivessem a delicada condescendência de ouvir, não deixariam os outros, o mundo, de gritar que era o conto do gabar da noiva… Claro que o mundo ralha de tudo, coitado; é um desabafo como outro qualquer. Quer-me parecer, entretanto, que neste caso o mundo não tinha razão para falar.
Eu podia dizer bastante, com verdade e justiça, sobre as qualidades dos meus patrícios: o seu amor ao trabalho, o fiozinho sentimental que os une a todos, mesmo aos que andam perdidos por esses reinos de Cristo, a sua vontade de caminhar e progredir, vontade obscura mas tenaz, vontade de bons plebeus e camponeses, pessoas cujas mãos não servem apenas para justificar as algibeiras…
O mundo não tinha que achar mal que eu mostrasse como esta aldeia ignorada já entrava no cadastro da população de 1527 com a sua dezena de habitantes, que viveram e sofreram nos tempos da conquista da India, nos tempos de Vasco da Gama e de Albuquerque; creio que não será despropósito tecer algumas considerações sobre o caminho andado até hoje por este pequeno núcleo de gente que, sem alarde, talvez sem brilho mas com persistência, tem mantido o seu lugar ao sol. Poderia ainda dizer, se o mundo não ralhasse, que…
Mas eu prefiro que o mundo se não canse. Tanto mais que isto é um escrito particular, uma carta à família, digamos, com que os outros nada têm.
É apenas a esses patrícios que eu devo afirmar que me sinto integrado nas suas aspirações, como me sinto igual a eles no desejo de melhorar a terra onde nascemos, que é, para os nossos olhos, muito diferente das outras.
É para os que se têm batido como podem e sabem pelo progresso local que eu devo confessar que me parece estar certa a sua atividade, limitando-me apenas a insistir nesta pequena regra de ação: uma terra não pode cultivando o desconhecimento das outras e muito menos a hostilidade ou inferioridade das restantes.
Anda-se há muitos séculos a clamar que somos irmãos e a viver como se fossemos de barro diferente. Porque é que num canto onde todos se conhecem – aldeia ou comarca, tanto faz…- onde são idênticas as aspirações, há de haver fumo em vez de luz, berros em vez de palavras? Deixo à consciência de todos a ponderação e desenvolvimento deste motivo. E fico convencido de que não faço mais que tornar claro o que está implícito no ânimo de cada um dos meus patrícios, um principio que sempre os tem guiado, mas em que nunca se insiste demasiadamente…"
M.C.
Coimbra, dezembro de 1934


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sábado, 18 de junho de 2022

O palacete dos "bonecos"

Diário do Governo n.º 57/1913, Série I de 1913-03-11 - Ministério do Interior - Direção Geral da Instrução Primária.
Portaria de 8 de Março,“(…) louvando o professor da escola do lugar do Barril e o cidadão
Joaquim Mendes Correia de Oliveira
por serviços relevantes prestados à instrução e educação cívica nacionais”

Conhecido como "prédio dos bonecos", o palacete foi construído pelo barrilense Joaquim Mendes Correia de Oliveira.  
O merecimento da sua generosidade no então denominado lugar do Barril, justifica encómios e destaque de “primeira página”, como o Governo da República reconheceu em 1913.
A Junta de Freguesia do Barril de Alva, em 1924, não deixou de lhe prestar justa homenagem ao atribuir o seu nome a uma das primeiras ruas da aldeia.
Joaquim Mendes Correia de Oliveira emigrou para Belém do Pará, no Brasil, onde fez fortuna. De regresso a Portugal, construiu de raiz um soberbo palacete na sua terra natal, ainda de pé e habitável. O edifício é conhecido como  “prédio dos bonecos” pelo facto da decoração do beirado ostentar peças de estatuária.
A talhe de foice, refira-se o pormenor de ter sido em 1911 residência temporária do ministro do Fomento da República, Brito Camacho, durante uma visita à região de Arganil.
A benemerência do nosso conterrâneo estendeu-se à construção
- do esplendoroso edifício da escola primária do Barril de Alva, em parceria com José Freire de Carvalho e Albuquerque, Abílio Nunes dos Santos e Joaquim Nunes dos Santos;
- da antiga sede da Filarmónica Barrilense (agora, depois de recuperada, acolhe um projeto cultural de inegável importância na comunidade: a Casa/Museu “OS BARRILENSES SÃO ASSIM”, frase emblemática dita vezes sem conta pelo seu filho A.I.A.C.O);
- da igreja matriz do Barril de Alva, que tem como orago S. Simão.
Infelizmente, Joaquim Mendes Correia de Oliveira faleceu relativamente novo.

O pequeno António Inácio Alves Correia de Oliveira  junto dos progenitores

Barrilense ilustre - José Quaresma Nunes dos Santos

José Quaresma Nunes dos Santos nasceu a 29 de Novembro de 1923 na aldeia de Barril de Alva. Depois de acabar a escola primária nesta localidade, com nove anos ingressa no Liceu José Falcão, em Coimbra.

Em 30 de Novembro de 1946 termina o curso de Matemáticas Puras, recusando o convite para se tornar assistente na mesma universidade; pede equivalências do seu primeiro curso e, no ano seguinte, completa Engenharia Geográfica. Começa a trabalhar para o IGC (Instituto de Geografia Cadastral) no Departamento de Geodesia, fazendo trabalhos de Triangulação, Nivelamento de Alta Precisão, efetuando várias viagens em trabalho por todo Portugal. Casa-se a 17 de Julho de 1948 com Maria Teresa das Neves de Jesus Santos Nunes dos Santos.
Sai do IGC para se juntar ao IITC (Instituto de Investigação Científica e Tropical), nomeadamente à MGM (Missão Geográfica de Moçambique) em 1953, fazendo viagens de seis em seis meses para Moçambique até 1964. Em 1964, com a saída de um Decreto-Lei acerca da permanência de alguns engenheiros (chamados residentes) nas províncias portuguesas, muda-se com a família (Mulher e filhos) para Lourenço Marques, onde permanece residente até 1974, realizando os trabalhos que já exercia no IGC, tal como Medições de Base, Gravimetria e Astronomia, agora para a MGM.
Após o regresso para Portugal mantém o seu cargo na Repartição da MGM na Praça João do Rio n.º 2, em Lisboa, sendo esporadicamente convidado para fazer trabalhos técnicos para o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), como por exemplo a manutenção de barragens, em particular a manutenção da barragem da Agueira, onde efetuava observações, até à sua morte no dia 24 de Abril de 1983.
(Recolhido por Carla Ramos, natural de Moçambique - arquiteta paisagista).
. Foto cedida gentilmente pela família Nunes dos Santos - texto de Tiago Hirth 

terça-feira, 14 de junho de 2022

"A bem da nossa terra"...

Para que conste ...

"A bem da nossa terra - pela direção da União e Progresso do Barril de Alva, o presidente,"

Adalberto Gens da Costa Simões





sexta-feira, 10 de junho de 2022

Memorial - Praça Barril de Alva


A decisão da Câmara Municipal de Almada, então presidida por Maria Emília de Sousa, conceder a honra ao Barril de Alva de fazer parte da toponímia de uma das suas freguesias, é o reconhecimento da importância da comunidade barrilense no concelho, a vários níveis, como é sublinhado durante intervenções públicas de caráter social, onde o nome da União e Progresso do Barril de Alva surge como “parceiro” de relevo nas diferentes áreas em que manifesta a sua presença ativa.
- "Quantas freguesias do país se podem orgulhar de memorial semelhante? (…) *
A extinta Junta de Freguesia do Barril de Alva, no tempo certo, por seu turno, passou a reconhecer uma das suas principais artérias como Rua Cidade de Almada.
Esta troca de gentilezas entre responsáveis autárquicos, na verdade, é muito mais do que “meras gentilezas”: irmanam as pessoas!
“(…) não há área de Almada onde não haja gente de Arganil - uma presença significativa organizada que ali mantém a ligação das suas raízes”. “Almada tem recebido gente de todo o lado, mas os de Arganil souberam granjear o nosso respeito com trabalho” - palavras de Joaquim Judas, presidente da Câmara Municipal de Almada, durante o almoço convívio no Barril de Alva em maio de 2017
-
* Excerto da intervenção do último presidente da Junta de Freguesia do Barril de Alva na Assembleia Municipal de Arganil, realizada no dia 29 de setembro de 2012, a propósito da manutenção da independência administrativa desta freguesia:
“(…) Por fim, não podia deixar de enaltecer a existência, desde 1935, da União e Progresso do Barril de Alva - instituição pioneira do regionalismo arganilense e que, para além de todas as benfeitorias sociais e económicas com que dotou o Barril de Alva, continua a apoiar a Filarmónica e a juventude da freguesia, mantém a sua sede social em permanente atividade na região de Almada, cujo Município fez erguer na freguesia do Laranjeiro uma praça a que deu o nome do Barril de Alva em homenagem às centenas de barrilenses que ajudaram a construir o concelho. Quantas freguesias do país se podem orgulhar de memorial semelhante? (…)


quarta-feira, 8 de junho de 2022

Os romanos andaram por aqui...

 Sabe-se que os povos antigos, designadamente os Romanos, exploraram o ouro no leito e nas margens do Rio Alva.


No Barril de Alva, na margem direita do rio, na Área de Serviço e Pernoita para Autocaravanas, ainda existem milhares de pedras redondas (calhaus) que formam uma CONHEIRA - (…) local onde foram amontoados seixos rolados resultantes do trabalho de exploração mineira do ouro pelos Romanos(…) - “e que muito úteis foram na construção da estrada do Barril para Coja “(António Inácio Alves Correia de Oliveira (AIACO) - “ A Comarca de Arganil”
Pela leitura de inúmeros estudos é possível localizar zonas onde surgem (…) testemunhos das lavarias de ouro em que as terras eram lavadas e as pedras redondas (calhaus) arrumados como escombros (…). 
O semanário “Campeão das Províncias”, na edição do dia 26 Agosto de 2016, com o título “Ouro - Maior área mineira de ouro do Portugal romano encontra-se ao longo do Rio Alva, no concelho de Arganil", divulgou (…) a investigação sobre mineração antiga, efetuada por investigadores do CEAACP da Universidade de Coimbra e do Consejo Superior de Investigaciones Cientificas – Madrid (…), e salientou: "(…) Os restos que revelam os trabalhos mineiros de época romana concentram-se no concelho de Arganil, ao longo do Alva, sendo esta área mineira particularmente extensa junto a Coja. Entre os vestígios arqueológicos descobertos também se encontram os de um possível acampamento militar romano" (Lomba do Canho).
Jorge de Alarcão refere a exploração mineira do Alva, colocando algumas questões relativamente à época da sua exploração, “Nas margens do rio Alva, entre Vila Cova e a confluência do Alva e do Mondego (…)" – Direção Geral do Património Cultural.
Trabalho de excelência foi elaborado pela doutora Carla Maria Braz Martins, da Universidade do Minho, Braga, em 2008, sobre A EXPLORAÇÃO MINEIRA ROMANA E A METALURGIA DO OURO EM PORTUGAL, "(…) principalmente nas margens do rio Alva (vale de Arganil)" - página 45.
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*Texto  publicado no blog "Terras do Alva" em julho de 2017